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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Nem queria...

Eu nem queria te namorar
Não queria que tudo desse certo mesmo
Não queria você batendo na porta da minha casa
No meio da madrugada
Só pra me dizer
Que terminou com sua namorada
Nem queria que você pegasse a minha mão
Nem que me levasse ao cinema
Eu não!
Já pensou que horror?
Você abrindo a porta do seu Doblô
Só pra eu entrar
E se você achasse no rádio uma estação
Que traduz em músicas o que se passa em meu coração?
Já pensou que brega...
Você perguntando que horas me pega
Pra gente fazer um piquenique no domingo
Ou me fazendo carinho enquanto eu estivesse dormindo
Eu nem queria te namorar
 Eu nem torci pra você acabar
Pra gente começar
Eu nem acho seu sorriso perfeito
Eu nem gosto do movimento do seu cabelo
O vibrar do meu celular
Nem faz palpitar meu peito
Na verdade eu gosto de tudo como está agora
Eu no meu canto e você indo embora
Porque eu nunca signifiquei nada pra você
E você nem foi nada pra mim
Tudo está bom assim
Estou muito feliz
Com meus doces, meus filmes depressivos e minhas espinhas no nariz
Isso mesmo, pode ficar bem longe
Porque eu nunca gostei de te ver
Porque nós nunca tivemos nada a ver
Porque eu prefiro ver TV
E comer
Até minha roupa não caber
Até não pensar em você.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Ceia de Natal

O ser humano está sempre querendo superar limites. Nunca estamos satisfeitos com a quantidade de comida que enfiamos no nosso estômago, estamos sempre testando sua elasticidade e capacidade máxima de armazenamento. Enquanto existir capacidade de abrir a boca, existirá espaço para uma fatia de panetone, duas colheradas de arroz com passas, cinco rabanadas, um pedaço de chester...

O problema é que os alimentos ficam na mesa de jantar a noite toda. Então, toda vez que passamos por ela, comemos alguma coisa, como se tivéssemos a necessidade de vê-la vazia. Ou como se estivéssemos estocando comida para um mês inteiro. Foi ao banheiro, pegou um docinho. Foi olhar a árvore, comeu castanhas. Elogiou a mesa, comeu outro pedaço de tender. Ficou sozinho na sala, enfiou uma rabanada, uma colher de farofa, um vidro de patê e um enfeite da mesa na boca.

E sempre existe aquela história de "Será que esse é bom? Vou botar um pouquinho no prato pra experimentar", ou então "Não comi isso ontem, vou ver se é bom mesmo...". É lógico que é bom! E é óbvio que você já sabe disso porque ceia de Natal não muda! Para com essa desculpa esfarrapada e põe logo esse negócio no prato!

E, no fim da noite, a famosa frase: "Comi demais. Nunca mais vou comer assim!". Mentira! Porque, como sobrou bastante comida e ainda há capacidade de abrir a boca, no dia seguinte a história se repete...

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Insegurança

Eu costumava ser essencial. Era a pessoa para quem você ligava quando tinha insônia. A pessoa que te ouvia — com ouvidos e coração abertos — quando precisava compartilhar sua dor. Sim, eu tomava parte de suas dores para tirar um peso dos seus ombros. Eu fui quem acreditou no seu sucesso antes mesmo de você sonhar em conquistar o mundo. Mas isso foi em outra época. Quando todos viam como pequena a grande pessoa que eu sempre soube que você era.

Você fez com que eu me sentisse insubstituível. Despertou em mim o desejo de sê-lo. E agora que tudo se ajeitou, não precisa mais de mim, não é mesmo? Afinal, não há mais insônia, nem dor e nem insegurança para conquistar as coisas.

Com sua ausência, eu fui insônia, fui dor e fui insegurança para te conquistar. Para te reconquistar. Fui inseguro a tal ponto que desisti. Até não haver — também para mim — mais insônia ou dor. Insegurança? Não sei. O que você acha?

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Bebeu água?

Indo a pé para a academia. Música alta, pose de pessoa saudável, roupas de malhar, garrafinha de água... Muita gente te olha, mas você, ser superior, ignora a existência delas — faz parte da postura, isso é sexy.

Aí você vai pagar uma de gatinha, bebendo água como se fizesse propaganda da Aquarius, e um carro reduz a velocidade para acompanhar o seu desfile. Você dá uma olhadinha rápida para ver se a pessoa é digna de um retorno positivo. É. Digníssima.

Troca de olhares. Sorrisos. Propaganda da Aquarius. Pedestre se engasgando loucamente com a água, tossindo os órgãos, chorando, perdendo o ar, vendo Deus. Motorista chorando... de rir.

Tudo bem! Finge que nada aconteceu! Chega na academia ainda com pose. Sua música alta não deixa você falar com ninguém. Você é intocável.

Começa a alucinar na bicicleta. Ninguém consegue ir mais rápido! Você pega a garrafinha sem diminuir a velocidade do aparelho. Então a tampa abre bem no meio da sua face. No susto, você respira água e se engasga. Se afoga. Tosse os órgãos. Chora. Perde o ar. Vê Deus.

E ainda me perguntam porque eu gosto da academia vazia...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Ainda

Eu não devia me sentir assim. O coração batendo forte devia ser coisa boa. A agonia no estômago, borboletas, e não gastrite. Talvez seja a consequência de sofrer calada. Estou tentando me explodir em palavras, enquanto as lágrimas não chegam, para que o estrago não seja feito dentro de mim, dentro de um coração que ainda é bom.

Apenas em palavras escritas que eu posso derramar esse sentimento ruim. Porque não quero afetar os seus ouvidos com frases rudes. Não quero afetar seu coração que ainda é bom, ainda é meu. Ou não...

Não posso simplesmente te dizer o que sinto, porque eu sei o poder que isso causaria em ti. Nos teus olhos. Nas tuas mãos. No teu coração, que não é mais meu. É teu, e de ninguém mais.

Não quero misturar com o amor um sentimento tão terrível como a desconfiança, o ciúme. Não quero misturar minhas lágrimas com o seu sorriso. Não quero misturar meu pessimismo com seus planos. Não quero que minha boca de palavras duras se misture com seus lábios de versos delicados.

E faço isso por te amar. Porque não quero que você sinta essa agonia de abrigar dois sentimentos tão fortes como o amor e o ciúme. Eu sinto isso sozinha, calada. Dentro de um coração que não é mais meu. Dentro do coração que ainda é seu.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Cinema Espanhol

"Machado de Assis, escrevendo Dom Casmurro, produziu um dos maiores livros da literatura universal. Mas criando Capitu, a espantosa menina de 'olhos olbíquos e dissimulados..."

"Machado de Assis, escrevendo Dom Casmurro, produziu um dos maiores livros da litaratu...". A quem estou querendo enganar? Já li esse prefácio um milhão de vezes e não consigo sair do primeiro parágrafo! Dom Casmurro? Por que estou vendo o prefácio de Dom Casmurro? Do meu livro favorito? Simples. Para ver se o tempo passa mais rápido enquanto eu espero...

Agora estou fingindo ler uma revista de culinária enquanto observo as pessoas na livraria. Nunca me enganei pelas aparências. Quem me viu podia jurar que Machado de Assis era uma novidade para mim, ou que sou uma mulher prendada, dessas que sabe cozinhar de tudo. Nunca imaginariam que já li Dom Casmurro em três idiomas ou que a minha especialidade é ovo mexido. Queimado, obviamente.

Finalmente encontro uma revista interessante. E, como não poderia deixar de ser, sendo eu uma pessoa muito sortuda, estava num lugar de difícil acesso. Mas antes fosse somente a minha baixa estatura. A bendita não só estava na última prateleira, como também ao lado das revistas masculinas.

— Deixe-me ajudar a senhorita - disse um vendedor da loja, me entregando uma revista de uma loira bronzeada.

— Oh, não! Não é...

— Tudo bem, moça. Sem preconceitos - interrompeu e saiu.

Sem preconceitos. Apenas todos os olhares da livraria se dirigindo às minhas mãos. Apenas isso. Amaldiçoei a pessoa que colocou uma revista de cinema espanhol ao lado das de "nu artístico".

— Vai comprar?

— Que? Isso? Ah... Não! Claro que não!

— Nunca se sabe...

— Engraçadinho... Onde você estava esse tempo todo?

— Eu estava aqui. Cheguei mais cedo e dei uma olhada por toda a livraria. Achei uma revista sobre cinema espanhol, ia comprá-la para você, mas imaginei que já a tivesse. Então fui para o piso de cima tomar um café e te encontrei.

— Revista de que?

— Cinema espanhol.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Anemia

Eu preciso de um exame de sangue.

Preciso comprovar uma doença para eliminar outra. Eu preciso que o resultado dê positivo para anemia, e não para outra patologia com a mesma inicial. Porque, se esse frio na barriga, esse tremor, essa falta de ar não forem sintomas de falta de ferro na corrente sanguínea, serão falta de ferro da cabeça no coração. Sim, senhores, estou falando de amor.

Talvez seja só anemia... Mas o que explica sua aparição em todos os meus sonhos e pensamentos? E até em planos!

Estou doente do coração. Arritmia. O pobre coitado batendo num compasso diferente, caminhando muito além da realidade, sempre vagarosa.

Estou doente também dos ossos. O esqueleto que sustentava um castelo, um forte, está falho. E agora faz balançar toda a edificação.

Estou doente da cabeça. Ando perdendo a linha de raciocínio, esquecendo feitos importantes e recordando coisas bestas, como a presilha azul marinho que você usava para prender o cabelo e se aliviar do calor.

Minha doença na cabeça afetou minha fala, sempre estúpida e mais rápida que meu pensamento. Quando dou por mim, já estou te fazendo elogios ou me embaralhando completamente com suas perguntas indiscretas.

Suponho que essa vitamina de A a Z que venho tomando há três meses não tenha efeito algum. Três meses... Foi quando eu comecei a falar direito com você. Que coincidência!

Eu preciso de um exame de sangue. Para comprovar minha sentença final: de saúde ou de minha condição de ser racional. Porque se isso não é anemia, senhores, só pode ser amor.